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24/08/2011 - 09h18

Medo de morrer por ataque de tubarão?

 
 

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Venho batendo nessa tecla há alguns anos, em meus artigos e palestras. No imaginário coletivo, quando o tema é o poder de causar pânico e fobia, nada se compara à morte por ataque de tubarão.

E não adianta dizer que, na África, todos os anos, dezenas de pessoas são atacadas e devoradas por leões e que elefantes e hipopótamos atacam e matam centenas de pessoas. Ninguém tem fobia de leão, elefante ou hipopótamo. O melhor amigo do homem é responsável por milhões de ataques e centenas de mortes ao redor do mundo e, com exceção dos que já foram atacados, poucos têm fobia de cachorro. No entanto, milhões de pessoas, mesmo aquelas que nunca viram o mar, têm fobia de tubarão. Incrível, não?

E se eu disser que as árvores de Natal matam, na Austrália, muito mais pessoas do que os tubarões-brancos, você vai passar a ter fobia de árvore de Natal? Imagino que não. Mas já está na hora de desmitificar a imagem sensacionalista e irreal do tubarão como o "terror dos mares". Quem sabe uma lista racional comparativa o convença a mudar de ideia.

Veja abaixo 20 causas de morte mais prováveis do que o ataque de tubarão.

Obesidade mata 30.000 pessoas por ano no mundo;
Raios matam 10.000 pessoas por ano no mundo;
Envio de SMS em situações impróprias matam 6.000 pessoas por ano no mundo;
Hipopótamos matam 2.900 pessoas por ano no mundo;
Aviões matam 1.200 pessoas por ano no mundo;
Vulcões matam 845 pessoas por ano no mundo;
Asfixia em atos eróticos matam 600 pessoas por ano no mundo;
Compras em grandes liquidações matam 550 pessoas por ano no mundo;
Cair da cama mata 450 pessoas por ano no mundo;
Baheiras matam 340 pessoas por ano no mundo;
Cervos matam 130 pessoas por ano no mundo;
Pontas de gelo matam 100 pessoas por ano na Rússia;
Hot dogs matam 70 crianças por ano no mundo;
Tornados matam 60 pessoas por ano no mundo;
águas vivas matam 40 pessoas por ano no mundo;
Cachorros matam 30 pessoas por ano nos Estados Unidos;
Formigas matam 30 pessoas por ano no mundo;
Futebol de mata 20 pessoas por ano no mundo;
Vending machines matam 13 pessoas por ano no mundo;
Montanhas russa matam 6 pessoas por ano no mundo;
Tubarões matam apenas de 3 a 5 pessoas por ano no mundo.

(Fonte dos dados)

Ao entrar no mar, é bem verdade, passamos a compartilhar o ambiente natural desses extraordinários predadores, mas, ainda assim, somente circunstâncias muito especiais costumam ocasionar um ataque de tubarão ao ser humano. Na realidade, ataques de tubarão ao homem são eventos absolutamente raros em quase todo o mundo. São tão improváveis e inusitados que podemos chamá-los de incidentes.

Das 400 espécies que habitam os oceanos do Planeta, os registros demonstram que somente três são perigosas e realmente podem atacar de forma não-provocada, inclusive no litoral brasileiro. São elas: o tubarão-branco, o tubarão-tigre e o tubarão cabeça-chata. Mas deve-se esclarecer que, fora os ataques motivados por essas circunstâncias especiais, como erros de identificação ou invasão de território, não se sabe exatamente por que essas espécies podem agir desta forma, pois se nós humanos realmente representássemos uma presa apetitosa aos seus olhos, haveria muito poucas praias seguras ao redor do mundo e os ataques seriam diários e contados aos milhares.

O vasto e misterioso oceano sempre foi um elemento provocador de um medo mítico. Se nos tempos das grandes navegações temia-se os dragões e polvos gigantes, os tubarões são, seguramente, os seres marinhos mais temidos e respeitados no mundo contemporâneo. Dentre os grandes animais em todo o planeta implicados em ataques aos seres humanos, apenas os tubarões não permitem um "controle" pontual por parte do homem. Tudo isso, com certeza, potencializa nossa insegurança, mas não podemos desconsiderar o lado racional dessa questão.

Ainda que o lado racional possa estar presente, é fato constatar que a visão da nadadeira dorsal de um tubarão na superfície da água ou a simples menção de seu nome costumam causar medo, e até mesmo pânico, provocado simplesmente por sua fama e má reputação. Mas que razões emocionais levam aqueles que NUNCA pisaram em uma praia a temer os tubarões?

Mesmo aqueles que frequentam as praias e sabem (ou pelo menos deveriam saber) que, estatisticamente falando, têm 130 vezes mais chances de morrer dirigindo seu carro até a praia do que ao se aventurar na água após chegar lá, ou 75 vezes mais chances de morrer afogado na praia do que vitimado por um tubarão ou mesmo 15 vezes mais chances de morrer passando embaixo de um inofensivo coqueiro do que por um ataque de tubarão, apresentam comportamento semelhante. E por que isso acontece?

Ter medo de um animal ameaçador é normal. O medo é um componente importante para nossa sobrevivência. No entanto, quando o medo torna-se desproporcional à ameaça, quando perde-se o controle sobre o medo, tem-se a fobia. E somente a fobia pode explicar tal comportamento irracional. Não é por outra razão que o ataque de tubarão é o segundo perigo natural mais temido na mente humana. Só perde para a morte. Entretanto, o real perigo que os tubarões representam, em especial no litoral brasileiro, não é tão grande e certo como muitos acreditam. Apesar dos ataques de tubarão ocorridos na Grande Recife, uma área única no mundo onde fatores locais específicos aumentam os riscos, e nos últimos cinco anos houve apenas 8 ataques com 2 fatalidades, os tubarões não são "feras assassinas" como é comum imaginar. Longe disso. E falo por experiência própria.

Tenho mergulhado com tubarões ao redor do mundo, incluindo as três espécies "mais perigosas", com o objetivo de mostrar que é perfeitamente possível interagir de forma amistosa com esses seres fantásticos. Em minhas palestras pelo Brasil, gosto de expor uma comparação que exemplifica a diferença de interação e potencial de risco. Se você passar ao lado de um grande predador, como o crocodilo, o leão ou o tigre, e ele estiver com fome, há 100% de certeza de que ele o verá como uma presa e irá te atacar e te devorar. No entanto, você pode mergulhar com um tubarão sem saber se ele se alimentou nos últimos dias e, com certeza, ele irá te respeitar e não atacará.

Assim como tenho feito, biólogos marinhos e outros profissionais vêm estudando os tubarões nos últimos anos para tentar entender melhor seu comportamento e o porquê dos ocasionais ataques ao homem. Um dos objetivos principais é desmitificar e apagar a errônea imagem de "comedor de homens", como a que foi imputada na década de 1970 ao tubarão-branco com o lançamento do famoso filme Tubarão, de Steven Spielberg. A partir daí, a fobia espalhou-se pelo mundo. O filme conseguiu, com grande êxito, passar a distorcida ideia de que o tubarão-branco era um animal perverso e sanguinário, que tinha o homem como alvo principal. A imagem da barbatana dorsal do tubarão-branco, como uma foice singrando as águas atrás da próxima e indefesa vítima humana, que inevitavelmente era abocanhada e mastigada pelas imensas mandíbulas abertas com enormes dentes triangulares aparentes, foi tão forte e negativa que os tubarões-brancos passaram a ser considerados inimigos públicos número 1 da sociedade. Foram perseguidos e caçados impiedosamente. Apesar de seu tamanho e força, milhares foram exterminados e a espécie não conseguiu absorver o golpe, declinando mais de 80% nos últimos 30 anos.

Infelizmente, toda essa fobia continua contribuindo para que a sociedade não se preocupe com a matança cruel dos tubarões. Ou pior, forma uma torcida coletiva de fóbicos que acreditam que a solução passa por "limpar as águas infestadas por essa feras". Atualmente, cerca de 100 milhões de tubarões são capturados e mortos a cada ano em todos os mares, grande parte para obtenção das barbatanas de tubarão. Isso representa uma monumental ameaça à sobrevivência dos tubarões e está levando muitas populações ao declínio vertiginoso. Nesse ritmo de consumo insustentável, algumas espécies serão extintas nos próximos anos. E sem esses guardiões dos mares, teremos um ambiente marinho doente, frágil e com desequilíbrios ambientais imprevisíveis.

O Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA) tem, entre seus grandes objetivos, a tarefa de desmitificar essa imagem sensacionalista e irreal dos tubarões e mostrar que eles exercem um papel crucial na manutenção da saúde e do equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Só assim, conseguiremos convencer as pessoas a aceitar que os tubarões são seres marinhos que também merecem e precisam ser preservados, como os golfinhos, baleias e tartarugas.

Deixe de bobagem e se preocupe com causas muito mais prováveis.

Por Marcelo Szpilman*

* Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor do livro "Guia Aqualung de Peixes" (1991), "Aqualung Guide to Fishes" (1992), "Seres Marinhos Perigosos" (1998/1999), "Peixes Marinhos do Brasil" (2000/2001), "Tubarões no Brasil" (2004), e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto Aqualung. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA) e membro da Comissão Científica Nacional (COCIEN) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).

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