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Artigos


26/01/2012 - 07h33

Tubarões - Devemos temê-los ou protegê-los?

 
 

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Há anos venho falando sobre o tema tubarões em meus artigos e palestras. Trata-se, é verdade, de um assunto que faz aflorar sentimentos que, em princípio, poderiam parecer instintivos. Mas não são. Somos ensinados desde a infância, e com razão, a temer situações e animais que possam efetivamente nos provocar dano físico. E aí estão incluídos: fogo, choque elétrico, cachorros, aranhas e cobras (apenas para citar alguns). Mas, por acaso, você se lembra de seus pais dizendo "cuidado com os leões"? Claro que não. Seria excesso de zelo da parte deles. Então, o que leva você a temer e recomendar cuidado com os tubarões? Argumentos racionais ou razões emocionais?

Mais uma vez, ao escrever esse artigo (e espero que você o leia), meu objetivo será desmitificar a imagem sensacionalista e irreal dos tubarões como "feras assassinas dos mares", que logo vem à mente de muitas pessoas, e talvez à sua também, e mostrar que os tubarões exercem um importante papel na manutenção da saúde e do equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Mais uma vez, considerando os aspectos lógicos dessa questão, tentarei convencê-lo a aceitar a ideia de que os tubarões são seres marinhos que também merecem e precisam ser protegidos e preservados, como os pandas, os golfinhos, baleias e tartarugas-marinhas. Mas, diferente desses últimos, para "fazer sua cabeça" e aliciá-lo à causa, estou convencido de que será preciso explicar qual é o papel dos tubarões no ecossistema marinho. Vamos lá então; começando pela imagem do tubarão e depois explicando sua importante função.

No imaginário coletivo, quando o tema é o poder de causar pânico e fobia, nada se compara ao ataque de tubarão. Em grande parte, isso decorre da impactante imagem de "comedor de homens" que foi imputada ao tubarão, na figura do tubarão-branco, pelo filme homônimo de Steven Spielberg. Com grande êxito, o filme conseguiu passar a distorcida imagem de um animal perverso e sanguinário. Tão forte, que criou uma fobia coletiva ao redor do mundo - basta tocar a famosa música tema do filme para causar arrepios. Tão negativa, que formou uma torcida de fóbicos que até hoje acredita que a solução para dar segurança nas praias passa por "limpar as águas infestadas por essas feras".

Todos os anos, na África, dezenas de pessoas são atacadas e devoradas por leões. E é lá também que elefantes e hipopótamos atacam e matam milhares de pessoas. Mas ninguém (a não ser quem já foi atacado) tem fobia de leão, elefante ou hipopótamo. No entanto, milhões de pessoas, e você pode estar entre elas, que nunca tiveram ou terão um encontro com um tubarão em toda a sua vida, ou mesmo aquelas que nunca viram o mar, têm fobia de tubarão. Incrível, não? Então, respondendo à pergunta do primeiro parágrafo, a não ser que você vá nadar ou mergulhar em uma área reconhecidamente habitada por tubarões potencialmente perigosos e com registros de ataque, como Recife ou Durban, não faz o menor sentido ouvir a recomendação de cuidado com os tubarões. Seria o mesmo que dizer cuidado com as onças a alguém que vai fazer trilha no Parque Nacional da Serra da Bocaina (RJ e SP).

Ter medo de um animal ameaçador é absolutamente normal. O medo é um componente importante para a nossa sobrevivência. No entanto, quando perde-se o controle sobre o medo e ele se torna desproporcional à ameaça, tem-se a fobia. E somente a fobia pode explicar tal comportamento irracional. Entretanto, o real perigo que os tubarões representam está muito aquém do que é comum imaginar. Longe disso. Interagir de forma amistosa com esses seres fantásticos é não só perfeitamente possível como bastante prazeroso.

Mergulhar com tubarões, como eu e muitos mergulhadores fazem em áreas específicas ao redor do Planeta, é muito mais seguro do que inúmeras atividades esportivas ou recreativas, como voo de asa-delta, paraquedismo, ciclismo ou até mesmo futebol americano (veja abaixo a lista das 20 causas de morte mais prováveis do que por ataque de tubarão). Em minhas palestras pelo Brasil, insisto sempre em uma comparação que exemplifica a diferença de interação e potencial de risco. Se você passar ao lado de um grande predador, como o crocodilo, o leão ou o tigre, e ele estiver com fome, há 100% de certeza de que ele o verá como uma presa e irá atacar e te devorar. No entanto, você pode mergulhar com um tubarão sem saber se ele se alimentou nos últimos dias e, com certeza, ele irá te respeitar e não atacará.

Ao entrar no mar, é bem verdade, passamos a compartilhar o ambiente natural desses extraordinários predadores, mas, ainda assim, somente circunstâncias muito especiais podem ocasionar um ataque de tubarão ao ser humano. Na realidade, ataques de tubarão ao homem são eventos absolutamente raros em quase todo o mundo __ não passam de 80 a 100 ataques por ano em regiões já conhecidas e mapeadas. Das 400 espécies que habitam os oceanos, os registros demonstram que somente três são perigosas e realmente podem atacar de forma não provocada. São elas: o tubarão-branco, o tubarão-tigre e o tubarão cabeça-chata. Mas deve-se esclarecer que, fora os ataques motivados por essas circunstâncias especiais, como erros de identificação ou invasão de território, onde 90% dos casos envolvem uma única mordida (e não há fins de alimentação), não se sabe exatamente por que essas espécies podem agir desta forma, pois se nós humanos realmente representássemos uma presa apetitosa aos seus olhos, haveria muito poucas praias seguras ao redor do mundo e os ataques seriam diários e contados aos milhares.

Infelizmente, toda essa fobia continua contribuindo para que a sociedade não se preocupe com a pesca predatória e o consumo insustentável dos tubarões. Atualmente, cerca de 100 milhões de tubarões são capturados e mortos a cada ano em todos os mares, em grande parte para obtenção exclusiva das nadadeiras (finning) que irão prover o lucrativo mercado oriental de sopa de barbatana de tubarão. Isso representa uma monumental ameaça à sobrevivência dos tubarões e está levando muitas populações ao declínio vertiginoso. Nesse ritmo, algumas espécies serão extintas nos próximos anos. E é aí que chegamos ao segundo ponto, já que para convencer as pessoas a proteger e preservar os tubarões não basta falar em matança cruel e extinção em massa. É preciso explicar qual é o papel dos tubarões no ecossistema marinho e o quanto sua falta influenciará no bem-estar da humanidade.

Os tubarões exercem duas funções primordiais no meio ambiente marinho. Primeiro, como predadores situados no topo da cadeia alimentar, o equivalente oceânico aos leões africanos e tigres asiáticos, os tubarões asseguram um tipo de ordem nos oceanos. Mantêm o controle populacional de suas presas habituais e exercem importante papel na seleção natural ao predar os mais lentos e os mais fracos. Em segundo, ao comerem os animais e peixes doentes, feridos ou mortos, exercem também uma função extremamente importante na manutenção da saúde dos oceanos. Para entender melhor o que isso significa basta ver a semelhante função do urubu no ambiente terrestre. Os urubus, assim como os grandes carniceiros, consomem um cadáver (de qualquer animal que morre na natureza) em questão de minutos. Se acabássemos com os grandes carniceiros terrestres, as carniças passariam a ser consumidas somente por insetos, bactérias e micróbios, que levariam dias ou semanas nesse intento. O nível de microrganismos no ar que respiramos seria insuportável e insalubre. No mar acontece a mesma coisa. Sem esses guardiões dos mares, teremos um ambiente marinho doente, frágil e com desequilíbrios ambientais imprevisíveis que podem representar graves consequências para nossas vidas e atividades comerciais.

Reflita sobre tudo isso que aqui expus e pense na possibilidade de mudar sua concepção estigmatizada sobre os tubarões. Envolva-se e ajude a proteger e preservar os tubarões.

Proteger os tubarões é proteger a vida, é proteger a nós mesmos!

Ajude acabar com a Prática Insustentável do FINNING! Assine o abaixo-assinado acessando o link www.peticaopublica.com.br/finning.

Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA)
Instituto Ecológico Aqualung
Rua do Russel, 300/401 - Glória - Rio de Janeiro (RJ)
CEP: 22210-010
Telefones: (21) 2558-3428 / 2558-3429 / 2556-5030
Fax: (21) 2556-6006 / 2556-6021
E-mail: instaqua@uol.com.br
Site: www.institutoaqualung.com.br

Com apoio da Fun Dive

Por Marcelo Szpilman*

* Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor do livro "Guia Aqualung de Peixes" (1991), "Aqualung Guide to Fishes" (1992), "Seres Marinhos Perigosos" (1998/1999), "Peixes Marinhos do Brasil" (2000/2001), "Tubarões no Brasil" (2004), e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto Aqualung. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA) e membro da Comissão Científica Nacional (COCIEN) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).

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