Mergulho Scuba

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Artigos


31/05/2013 - 12h12

O impacto da prática do mergulho autônomo

 
 

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O mergulho autônomo já foi considerado uma atividade de impacto reduzido para os ecossistemas marinhos. Evidências recentes, no entanto, demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas se submetidas a planos de manejo malfeitos ou a intensa atividade turística.

Estudos sobre a reprodução de corais pétreos brasileiros surgiram apenas recentemente, entre o fim da década de 90 e início de 2000. Das 16 espécies que vivem em profundidades até 30-40 metros, ou em águas rasas descritas para o Brasil, metade já foi estudada quanto a seus aspectos reprodutivos. Esse tipo de abordagem geralmente envolve a coleta de animais em seus habitats marinhos, o que exige planejamento adequado e deve levar em conta não só os objetivos finais da pesquisa, mas também os potenciais impactos negativos, principalmente na etapa de coleta (Quantas coletas? Quantos corais por coleta? Qual o tamanho desses corais? Como vamos coletar?).

Os organismos marinhos estão sendo confrontados com distúrbios ambientais gerados pelo homem muitas vezes com caráter contínuo e crônico, que impossibilitam a recuperação. Além disso esses distúrbios podem ocorrer com grande freqüência e intensidade, pondo em xeque a capacidade desses animais de se adaptarem às condições não familiares em um curto período de tempo. Por isso mesmo é importante que as pesquisas com corais e outros organismos marinhos produzam o mínimo impacto tanto aos indivíduos quanto às comunidades a que pertencem.

Essa preocupação em minimizar os impactos surgiu logo no início do desenvolvimento do projeto de mestrado de um dos autores deste artigo (Daniela Muramatsu), realizado na área de zoologia da Universidade de São Paulo (USP) entre os anos de 2004 e 2007. O projeto envolveu a coleta (devidamente autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - Ibama) com mergulho autônomo (scuba, em inglês) de colônias do coral pétreo Madracis decactis, que ocorrem na baía de Ilha Grande, RJ, na Estação Ecológica de Tamoios.

O primeiro passo para a elaboração da metodologia foi um levantamento bibliográfico dos estudos sobre a reprodução de corais que utilizavam uma metodologia parecida com a que iríamos empregar. Esse passo inicial foi fundamental para a definição de um número mínimo de coletas e de corais e seu devido tamanho, o que garantiria o desenvolvimento da pesquisa ao mesmo tempo que produziria o menor impacto possível. Entretanto, logo no início dos mergulhos, observamos que alguns aspectos da metodologia estabelecida deveriam ser ajustados à realidade que encontramos no ambiente de coleta (na baía da Ilha Grande, RJ). O objetivo desse cuidado foi o de minimizar esses impactos. Assim, por exemplo, optamos por coletar colônias que já estavam soltas em vez de quebrar partes maiores de corais e reduzimos o tamanho das amostras, pois percebemos que não havia necessidade de analisar amostras grandes para o tipo de estudo que faríamos.

As áreas marinhas protegidas são, atualmente, um dos melhores instrumentos de gerenciamento para a conservação de comunidades coralíneas e recifes de corais e por isso atraem tanto pesquisadores como turistas mergulhadores, permitindo um contato íntimo e inesquecível com a vida marinha. Durante o desenvolvimento do trabalho observamos muitos turistas mergulhadores no local de coleta (muitos deles iniciantes em treinamento), principalmente nas estações de verão e primavera, o que nos chamou a atenção sobre os potenciais impactos dos mergulhos turísticos na região.

Impacto subestimado

O mergulho autônomo já foi considerado uma prática com impacto irrelevante para os ecossistemas marinhos se comparado a outras atividades, como as práticas extrativistas. No entanto, evidências recentes demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas quando submetidas a planos de manejo malfeitos, ou a intensa atividade turística. Muitos trabalhos têm demonstrado que a recuperação de recifes degradados é muito mais lenta que a de recifes saudáveis. A sobrepesca, a poluição, a atividade extrativista e mesmo a de mergulho podem comprometer a capacidade de uma comunidade em resistir e restabelecer-se após eventos de distúrbios.

Assim, já que os nossos ambientes coralíneos são impotentes para impedir as alterações climáticas globais, como a acidificação (ou a perda da alcalinidade) e a elevação da temperatura do mar, é importante que ao menos os conservemos saudáveis para resistir e/ou se recuperar desses eventos. Em 1998, por exemplo, a elevação média da temperatura do mar eliminou cerca de 16% dos corais mundiais de águas rasas, incluindo recifes no Pacífico Oeste, na Austrália e no oceano Índico, considerados os mais bem cuidados e protegidos do mundo.

Quem teve a oportunidade de mergulhar em águas claras e passou alguns minutos apreciando a beleza do fundo do mar pode não saber dos potenciais impactos negativos que alguns de seus comportamentos podem provocar. Não se trata de poluir o ambiente com o lançamento indiscriminado de lixo ou coletar clandestinamente animais e plantas. Esses comportamentos talvez até sejam evitados por orientação dos próprios profissionais do mergulho. Estamos falando dos impactos que muitas vezes passam despercebidos pelo mergulhador e até pelas próprias empresas de mergulho.

Alguns trabalhos têm discutido o efeito do mergulho turístico em ambientes recifais. A pouca flutuabilidade dos mergulhadores, somada à falta de aviso das escolas e operadoras de mergulho sobre os cuidados a serem tomados (e até o próprio desconhecimento dessas empresas a respeito dos danos potenciais de mergulhadores mal preparados), podem provocar impactos nas comunidades visitadas. A quebra de partes da colônia de corais é um dos exemplos mais comuns desse efeito. Pesquisadores estimaram que num mergulho autônomo típico de 60 minutos, entre 4 a 8 metros de profundidade nos recifes de Eilat, no mar Vermelho, um mergulhador quebrava cerca de 1,7 ± 4,9 corais. Multiplicado pelo número de mergulhadores que visitaram esses recifes em 1996, os pesquisadores estimaram mais de 400 mil quebras de colônias de corais por ano.

No Brasil, a maioria das espécies de corais pétreos tem forma maciça e robusta e, portanto, devem ser mais resistentes à quebra. Entretanto, os mergulhos podem afetar os corais sem necessariamente quebrá-los fisicamente.

Sedimentos e âncoras

A abrasão dos tecidos parece ser suficiente para favorecer a suscetibilidade a doenças infecciosas, resultando muitas vezes em alta mortalidade e perda da cobertura de corais. Outro episódio bastante comum é a ressuspensão de sedimentos provocada pelo toque das nadadeiras no fundo inconsolidado. Aquelas nuvens de sedimentos que se formam quando tocamos as nadadeiras no fundo não prejudicam apenas a visibilidade e o mergulho de outros mergulhadores. Estudos mostraram que corais expostos a curtos períodos de sedimentação (principalmente de grânulos muito finos, do tamanho de siltes) são estressados, apresentam redução da produtividade e aumento da produção de muco, com custos elevados para o animal.

Em recifes onde prevalecem correntezas fortes os mergulhadores atingem rapidamente a postura horizontal uma vez obtida a flutuação neutra. Dessa maneira, suas nadadeiras não tocam os recifes com muita freqüência e poucas quebras de colônia ou ressuspensão são observadas. Mas parece que, nessa situação, os mergulhadores muitas vezes usam as mãos protegidas por luvas para se desviar de corais ou se segurar neles, principalmente para fotografar. Além dos impactos trazidos pelo mergulho em si, as próprias embarcações também podem provocar distúrbios aos ambientes turísticos com a poluição das águas e o lançamento indiscriminado de âncoras sobre os recifes.

O turismo subaquático cresceu muito nas últimas décadas e por isso é fundamental estabelecer um nível de uso adequado, em que o ecossistema seja capaz de lidar com certo limite de distúrbios e stress, acima do qual a degradação começa a manifestar-se, uma vez que mesmo níveis baixos de stress crônico ou repetitivo podem ter impactos severos na reprodução e nas taxas de crescimento dos corais. Alguns pesquisadores sugerem que, na ausência de dados específicos para um determinado local, uma boa regra seria manter o uso em níveis até um máximo de 5 mil a 6 mil mergulhos/ano.

Com freqüência, os ambientes marinhos não têm um "preço ambiental" a ser pago pelos consumidores, e a conseqüência disso é que podem permanecer por um preço muito baixo, o que leva a uma sobrecarga. Quando o acesso é livre, usuários individuais (mergulhadores) provavelmente não são incentivados à conservação, o que pode resultar na sensação de que a propriedade de todos é responsabilidade de ninguém.

Um bom gerenciamento de ecossistemas perturbados pelo homem é extremamente necessário, e decisões difíceis terão de ser tomadas com os limitados recursos para conservação. Por isso, estudos mais específicos a respeito do impacto de mergulhos são importantes, principalmente em locais com grande demanda turística e/ou muito utilizados para aulas de mergulho autônomo, com a presença de aprendizes com pouco controle de flutuabilidade e com maior potencial de danos ao ambiente.

Essas decisões difíceis devem passar por ações diretas, como a limitação do número de mergulhos por local/ano, a transferência dos cursos de mergulho e dos mergulhos introdutórios de locais com comunidades marinhas mais frágeis para locais onde as comunidades marinhas são menos diversificadas (por exemplo, sobre fundos arenosos com baixa cobertura de organismos vivos), a instrução de escolas e operadoras de mergulho a respeito dos impactos causados por mergulhadores mal preparados e a conscientização da necessidade do trabalho em conjunto para a conservação desses ambientes, dos quais as escolas e operadoras também dependem de forma direta, justamente pelo atrativo natural propiciado pela vida marinha.

- É importante que as pesquisas com corais e outros organismos marinhos produzam o mínimo impacto tanto aos indivíduos quanto às comunidades a que pertencem;
- Os organismos marinhos estão sendo confrontados com distúrbios ambientais gerados pelo homem, muitas vezes com caráter contínuo e crônico, que impossibilitam a recuperação;
- A sobrepesca, a poluição, a atividade extrativista e mesmo a de mergulho podem comprometer a capacidade de uma comunidade em resistir, reorganizar-se e restabelecer-se após eventos de distúrbios;
- O mergulho autônomo já foi considerado uma atividade de impacto reduzido para os ecossistemas marinhos. Evidências recentes, no entanto, demonstram que as comunidades coralíneas podem ser degradadas se submetidas a planos de manejo malfeitos ou a intensa atividade turística.

Um conjunto de atitudes quase sempre desconsideradas pode provocar danos irreversíveis aos corais. É o caso do contato com luvas, ou ainda mais graves, de lançamento de âncora, capaz de produzir rupturas na estrutura. A suspensão de sedimentos provocada pelo toque das nadadeiras no fundo estressa os corais, que apresentam redução da produtividade e aumento da produção de muco, com custos elevados para o animal.

Nos recifes com correntezas fortes os mergulhadores atingem rapidamente a postura horizontal. Nessa situação, eles muitas vezes usam as mãos protegidas por luvas para se desviar de corais ou se segurar neles.

A abrasão dos tecidos favorece a suscetibilidade a doenças infecciosas, implicando alta mortalidade e perda da cobertura de corais.

As embarcações também podem prejudicar os locais de mergulho, pois provocam a poluição das águas e o lançamento de âncoras sobre os recifes.

Com informações da Scientific American Brasil

Daniela Muramatsu e Fábio Lang da Silveira
Jornalistas

Reef Check
Monitoramento dos Recifes de Coral do Brasil (www.recifescosteiros.org.br/reefcheck/historico.php)

Projeto Coral Vivo
Aplica estudos recentes sobre reprodução, recrutamento e distribuição de corais brasileiros no estabelecimento de práticas de recuperação das populações de corais de recifes degradados (www.coralvivo.org.br).

Projeto Recifes Costeiros
Realiza pesquisa, experimentos de manejo, educação ambiental e implementação dos Conselhos Municipais de Defesa do Meio Ambiente (www.recifescosteiros.org.br/prc).

Programa de Monitoramento dos Recifes de Coral do Brasil
Publicado pelo Ministério do Meio Ambiente, Série Biodiversidade 18, de autoria de Beatrice P. Ferreira e Mauro Maida (www.recifescosteiros.org.br/reefcheck/download.php).

Biologia Marinha
Renato Crespo Pereira e Abílio Soares-Gomes (organizadores). Interciência, 2002.

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