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Artigos


12/01/2009 - 07h47

O mar não está pra peixe

 
 

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Vim de uma cidade onde não existe mar, a não ser um mar de gente ou um mar de carros. Já tinha meus doze ou treze anos quando fui à praia pela primeira vez em Mongaguá, litoral sul de São Paulo. Naquela época não havia o acúmulo de gente e de detritos nas areias ainda limpas. Cresci imaginando que o mar tranquiliza. Hoje, olho para ele todos os dias, entretanto, não consigo mais me sentir tranquilo diante de suas águas aparentemente tão claras. Ninguém, na verdade, pode estar satisfeito com a situação de nossos mares e oceanos. Sem catastrofismo, é possível dizer que os oceanos estão correndo rumo ao fim e esse fim será logo alcançado se nada for feito.

Muita gente, mas muita gente mesmo ainda não tem ideia de quanto os mares estão poluídos. Ouvem falar, mas não imaginam o que está ocorrendo abaixo da superfície. Voce, por exemplo, sabia que a poluição sonora está arruinando a vida marinha? Um navio de carga emite, pelo estouro das bolhas que seus propulsores criam na água, ruídos de 150 a 195 decibéis, mais do que os 120 de uma britadeira. Imagine então o barulho produzido por 100 mil cargueiros que cruzam os mares durante o ano inteiro! Os animais marinhos usam a audição para quase tudo - para encontrar o lugar de procriação, o parceiro sexual, a comida. Cientistas concluíram que a baleia azul está ficando surda - escuta a distâncias até 90% menores do que antes. Outras aparecem mortas nas praias após testes militares com sonares caça-submarinos, pois os 235 decibéis desses sonares causam hemorragia nos ouvidos e nos olhos dos animais.

Segundo a ONU, os mares estão em ruínas porque pescamos demais, produzimos lixo, gases do efeito estufa e esgoto demais e bagunçamos os ecossistemas. Pior: nem fazemos ideia do que está acontecendo lá embaixo em consequência disso. Imaginamos que o oceano está transbordando de tanta água, quando está acontecendo o contrário: ele está esvaziando, perdendo vida. O atum-azul, por exemplo, pode pesar o mesmo que um cavalo (500 quilos) e render 10 mil cortes do sashimi mais suculento e caro do mundo. Superpesqueiros rondam à sua caça, com a ajuda de sonares e de aviões localizadores. O navio que chegar primeiro leva o prêmio. O Japão captura 25% dos atuns-azuis dos oceanos. No maior mercado de peixes do planeta, o Tsukiji, em Tóquio, um desses peixes é leiloado por até US$ 25 mil. Os que são pescados pequenos ficam enjaulados em fazendas de engorda nas costas de países como Espanha, Itália e Turquia. Passam meses sendo alimentados com peixes gordurosos e depois são abatidos a tiros - isso mesmo, a tiros. Então seguem seu caminho rumo ao desaparecimento e às mesas dos apreciadores de sushis. Calma, não precisa parar de comer o seu porque o atum que comemos no Brasil não é dessa espécie.

Será que apenas o atum-azul sofre tanta perseguição humana? De forma alguma. O bacalhau do tipo cod foi reduzido a 1% da população original, em Grand Banks, a leste do Canadá; o blue skate, uma arraia que figura no fish`n`chips, prato típico inglês, sumiu do mar do Norte; o alabote do Atlântico, entrou em colapso ainda no século 19 e do esturjão do mar Cáspio - cujas ovas são o caríssimo caviar - só sobraram 10%. A indústria atual, quando entra em uma nova área de exploração, pode arrasar uma espécie comercial em 10 ou 15 anos. Nesse ritmo, podemos chegar ao colapso de todas as áreas de pesca do planeta em 2048 (já inutilizamos ou pescamos além do sustentável em 76% dessas regiões - no Brasil, sobe para 80%, segundo relatório recente do Greenpeace). Pense nisso, antes de reclamar que está faltando peroá na barraquinha mais próxima. Das populações de grandes peixes que nadavam em nossos mares em 1900, podem ter sobrado só 10% (estimativa de Boris Worm, professor de conservação marinha da Universidade de Dalhouse, no Canadá).

Bom, mas voce pode pensar que esses problemas são causados por grandes companhias que utilizam enormes navios pesqueiros. Outro engano, estima-se que um quarto a um terço de criaturas marinhas seja capturado acidentalmente a cada pesca de arrasto e jogado de volta ao mar, já morto ou morrendo. A ONU vem tentando, sem sucesso, tornar o arrasto ilegal em alto-mar. Outra burrada é a pesca-fantasma. Você sabia que quando uma rede é perdida no mar, ela continua pescando sozinha, só que para ninguém comer? Vai afundando e carregando peixes e crustáceos, até ficar cheia e aterrissar no fundo. As redes fantasmas matam 100 mil mamíferos marinhos por ano só no Pacífico Norte, segundo Charles Moore, criador da Fundação Algalita de Pesquisa Marinha, instituto californiano que se dedica a medir os impactos do lixo plástico nos oceanos.

Chegamos ao plástico, o grande vilão dos mares. O aumento da quantidade de lixo plástico nas águas do Pacífico na última década foi de 200%. Quer dizer, o mar virou a grande lixeira do planeta. O albatroz e a tartaruga-marinha, que se alimentam de moluscos, medusas e algas comem esses alimentos e engolem junto o lixo sólido que flutua no mar. O mais comum é morrerem de desnutrição, com o estômago que, de tão entulhado, fica incapaz de ingerir ou absorver nutrientes. Se você tiver estômago, pode ver a cena de uma necropsia no estômago de um albatroz mostrada num vídeo do You Tube. Com o bisturi, a bióloga cutuca e tira de dentro do bicho duas mãos cheias de lixo: 5 tampinhas de garrafa, uma caneta, 1 pedaço de tela e até uma escova de roupa! Esses pedaços de lixos sólidos levados pela corrente marinha desde a Antártida até a Groenlândia vitimaram até agora 267 espécies da fauna marinha, segundo o Greenpeace. Em todo o mar, 60 a 80% desse lixo são plástico. Você já ouviu falar do Grande Lixão do Pacífico? É uma área pouco maior que o estado de Minas Gerais, feita de 3,5 milhões de toneladas de lixo sólido, a meio caminho entre a Califórnia e o Havaí. Quem sabe não estejam por lá alguns saquinhos dos supermercados de Marataízes, ou então, boa parte do cocô do meu cachorro, ecologicamente recolhido e acondicionado em saquinhos plásticos? Esse lixo todo foi transportado pelas próprias correntes marinhas que carregaram tudo para um tipo de redemoinho, os vórtices, onde eles ficam presos e se concentram cada vez mais. Esses vórtices existem em vários lugares dos oceanos, mas nenhum é tão entulhado quanto o Grande Lixão.

O problema do plástico é que ele não é biodegradável. Ou seja, a ação da natureza sobre ele não o quebra em elementos simples - como o papel, que se reduz a água e CO2 quando decomposto. Ele só é quebrado pela luz do Sol, muito lentamente, em pedaços cada vez menores, mas sempre polímeros plásticos. Pode-se levar 450 anos para decompor uma garrafinha de água. Como num "eterno retorno", acabamos ingerindo as toxinas desses plásticos. Um pedaço de plástico tem uma carga tóxica dezenas de milhares de vezes maior que a da água salgado onde bóia. Quando vários deles são ingeridos pelo zooplâncton, a carga suja nessas criaturas aumenta, assim como nos peixes que as comem, nas focas que comem peixes e no urso que come a foca. Em 1995, a Suécia começou a recomendar que as mulheres em idade fértil limitassem o consumo de arenque e salmão no Báltico porque análises químicas mostraram que eles estavam muito contaminados com substâncias chamadas disruptoras endócrinas, causadoras de câncer, aumento da próstata e puberdade precoce entre outros distúrbios. O entulho plástico não vem só da costa, mas dos estados do interior, do escoamento dos rios, do esgoto ao sapato largado no bueiro. O oceano fica num nível mais baixo do que qualquer lugar no planeta. O cálculo mais aceito é que 80% da poluição dos mares são produzidos no continente.

Isso não quer dizer que a devastação ambiental não tenha origem nos mares. Noventa por cento das mercadorias comercializadas entre os países são transportadas por navios. A frota mundial de cargueiros chega a quase 100 mil. O impacto ambiental dos navios não se mede só pela poluição que eles geram, mas pela quantidade de vida que carregam. A flotilha de cargueiros do planeta transporta, além de seus contêineres, algo entre 7 mil e 10 mil espécies de criaturas marinhas todos os dias. Algumas viajam grudadas no casco, enquanto outras vão nadando nos 10 bilhões de toneladas de água de lastro levadas nos porões dos navios. Funciona assim: quando um cargueiro sai vazio ou meio cheio do porto, ele tem que armazenar água do mar em tanques, para ter a mesma estabilidade (o chamado lastro) de quando está com carga completa. Chegando ao porto de destino, ele esvazia os tanques enquanto carrega as mercadorias. E essa água vem misturada a areia, pedras, mexilhões, plâncton, peixes, bactérias, vírus e por aí vai. Tudo cabe lá dentro porque quase toda espécie marinha tem em seu ciclo de vida uma fase planctônica, em que é minúscula. Uma das consequências dessas viagens clandestinas teriam sido as 10 mil mortes por cólera na América do Sul - os primeiros casos da doença aconteceram na região dos portos, e os vibriões podem ter viajado pela água de lastro vinda de áreas endêmicas.

Em 2004, uma convenção internacional da Organização Marítima Internacional estabeleceu parâmetros de gerenciamento das águas de lastro para cargueiros. Apesar de ainda não ter entrado em vigor, já induziu leis nacionais, como no Brasil, a exigir a troca da água de lastro em alto-mar, evitando assim a invasão nas regiões costeiras. Infelizmente, não existe ainda um método totalmente eficaz de eliminação dos invasores. Enquanto isso, a indústria naval promete dobrar sua frota até 2025. Os navios vão promover uma globalização que vai além de uniformizar as marcas nas prateleiras dos supermercados: a globalização dos ecossistemas submersos.

Finalmente, voce já ouviu falar que existem desertos nos oceanos? São cinco, todos em alto-mar e o maior deles no Pacífico Sul. Assim como na terra, são lugares de pouquíssima fotossíntese, quase sem fitoplâncton, e que por isso não abrigam muita vida. O problema é que o mundo está ganhando cada vez mais desertos de água. Um estudo do oceanógrafo americano Jeff Polovina estimou que, em 10 anos, 6,6 milhões de km2 de área produtiva dos mares viraram desertos. Ele usou imagens de satélites que enxergam a "cor" do oceano (preto é o deserto, azul é mais produtivo e verde tem fitoplâncton abundante). As manchas "pretas" se expandiram à velocidade de um estado do Texas por ano. A culpa aqui é dos gases do efeito estufa. Como a água do mar está mais quente, diminui a ressurgência, ou seja, o fenômeno em que as águas frias e profundas, ricas em nutrientes, sobem à superfície. Isso acontece porque é mais difícil para a água fria se misturar a águas superficiais, que são quentes e leves. Isso afeta o suprimento de nutrientes na superfície e mata o fitoplâncton.

Desculpe amigo leitor, se por acaso estraguei seu momento de lazer neste início de ano com tantas coisas preocupantes. Eu mesmo, quando me sentei no quintal de casa, recebendo uma leve e refrescante brisa do mar, tinha em mente passar alguns momentos de serenidade folheando minha revista Superinteressante. Acontece, e voce há de concordar comigo, que somos todos passageiros dessa nave chamada Terra que por vezes já foi chamada de planeta Água. Somos, ao mesmo tempo, algozes e vítimas. Temos, portanto, responsabilidades na busca de alternativas para frear o ritmo dessas devastações. Não podemos, é claro, impedir os navios de cruzar os mares. Podemos, contudo, mudar alguns hábitos simples como acondicionar tudo que imaginamos em saquinhos plásticos. Eu, por exemplo, estou aqui pensando em como recolher o cocô do meu cachorro sem aumentar a quantidade de lixo plástico. Podemos aproveitar também o início da nova administração de Marataízes e propor a coleta seletiva de lixo em toda a cidade. Pode parecer uma utopia já que ultimamente nem a coleta tradicional anda sendo feita. Que tal então iniciar uma revolução ambiental com gestos tão simples?

Por Paulo Araujo, para o Portal Maratimba

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